Freio no número de matrículas no ensino superior

Matéria extraída do jornal "O Globo 17/12/05", de autoria de Carolina Brígido

O número de alunos matriculados em universidades cresceu menos em 2004 do que nos seis anos anteriores. O Censo da Educação Superior, divulgado ontem pelo Ministério da Educação (MEC), revelou que foram registradas no ano passado 4,1 milhões de matrículas no ensino superior. Isso representa um crescimento de 7,1% em relação a 2003, quando foram feitas 3,8 milhões de matrículas. O percentual de crescimento, porém, é o menor desde 1998.
Em 1998, a taxa de crescimento das matrículas foi de 9,3%. No ano seguinte, subiu para 11,5%. Em 2000, subiu mais ainda e alcançou quase o dobro deste ano: 13,7%. Em 2001, o crescimento foi de 12,5%. Mas o auge da expansão das matrículas ensino superior privado ocorreu em 2002, último ano do governo Fernando Henrique: 14,8%. Em 2003, a curva já tinha entrado na descendente e o crescimento fora de 11,7%.
Taxa atual seria mais realista do que anteriores
Para o diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do MEC, Dilvo Ristoff, a taxa atual revela com mais honestidade a realidade: — Antes, o ritmo de crescimento das matrículas não era compatível com o crescimento da população — disse Ristoff.
O censo também detectou uma queda na ritmo de criação de novas instituições de ensino superior. A taxa de crescimento no ano passado (em relação a 2003) foi de 8,3%. Nas edições anteriores do censo, esses percentuais foram de 17,9% em 2003; de 17,7% em 2002 e de 13,6% em 2001. Segundo o MEC, 2004 foi ano que apresentou menor taxa de crescimento no setor privado desde 1997, com apenas 8,3% a mais de instituições do que no ano anterior.
O resultado do grande crescimento registrado desde 1998 também foi detectado no censo: um grande número de vagas ociosas. Em 2004, foram oferecidas nos vestibulares de instituições públicas e privadas 2,320 milhões de vagas, mas 43,8% não foram preenchidas.
Maior parte das vagas ociosas no ensino privado
A maior parte, ou seja dois milhões de vagas, estava no setor privado. Em relação ao número de vagas ofertadas na rede privada, 49,5% não foram preenchidas. Nas universidades federais esse percentual foi de apenas 0,9%. Nas estaduais, a ociosidade ficou em 4,7%.
Ao apresentar os números, Ristoff alegou que o MEC trabalha com a possibilidade de que, em 2004, as instituições mais consolidadas preferiram aumentar o número de vagas do que criar novas unidades. Segundo o censo, em 2004 havia no Brasil 2.013 instituições de ensino superior, das quais 224 da rede pública e 1.789 da rede privada. Em 2003, o total era de 1.859: 207 públicas e 1.652 particulares.
Para o ministro da Educação, Fernando Haddad, muitas vezes as vagas não são ocupadas por causa da evasão durante o curso. O ministro afirmou que o MEC está estudando uma série de medidas para facilitar a política de transferência de alunos entre instituições, o que pode ajudar a resolver o problema.
— Não há uma cultura nas instituições de assimilar alunos, a não ser no primeiro ano. Não faz muito sentido ser assim.

Só 1 em cada 10 jovens é universitário
BRASÍLIA. O Censo da Educação Superior divulgado ontem pelo MEC mostrou que o país tem uma baixa taxa de escolarização líquida no ensino superior: 10,4%. Significa que apenas um em cada dez jovens com idade entre 18 a 24 anos está matriculado num curso superior. Ontem, o ministro Fernando Haddad disse que, diante do percentual, será impossível o governo cumprir a meta estabelecida de chegar a uma taxa de escolarização no ensino superior de 30% até 2011.
Segundo Haddad, a expectativa é que, em seis anos, a taxa alcance 15% se continuar nesse ritmo. Para o ministro, a situação pode melhorar se o Congresso Nacional se apressar e aprovar projetos de lei que tramitam atualmente sobre educação, como o que cria o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Haddad considera que, sem recursos para a educação básica, não há como aumentar o público potencial da educação superior.
— É um índice muito baixo, que pode ser melhorado. Temos que fazer um esforço muito grande para se cumprir a meta. Se todos os projetos saírem do papel, poderemos até chegar a 25% da taxa de escolarização até 2011 — avaliou o ministro.
O MEC trabalha também com a taxa de escolarização bruta — ou seja, a comparação entre a quantidade total de alunos do ensino superior, independente da idade, comparada com a população brasileira entre 18 e 24 anos. Considerando-se esse cálculo, a taxa apresentada é maior, de 17,3%. De acordo com esse método, a menor taxa de escolarização encontra-se na região Nordeste, com 9,5%. O Norte tem 12,1%; o Sudeste, 20,8%, e o Centro-Oeste, 22,1%. A melhor situação está no Sul, com taxa de escolarização de 24,7%.